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Veja: El futuro sin fidel

Posted by Ricardo en 23 febrero 2008 10:19

Um país de muito passado agora tem algum futuro

O ditador entrega o comando direto do país ao irmão, abre
caminho para mudanças, mas fica ainda como um fantasma
assombrando o povo e preservando sua tenebrosa herança


Diogo Schelp

Reuters
Fidel Castro

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Nesta reportagem
Artigo – Reinaldo Azevedo: Fidel e o golpe da revolução operada por outros meios
Exclusivo on-line
Perguntas e respostas: Cuba sem Fidel

Em 1953, levado a julgamento pelo crime de ter enviado seus primeiros seguidores para um ataque suicida a um quartel, o jovem advogado Fidel Castro Ruz assumiu a própria defesa e o fez de forma magnífica. Antecipando a retórica magnética, grandiosa, arrogante mas farsesca que o caracterizaria pelo resto da vida política, disse aos juízes: “A história me absolverá”. Passou-se mais de meio século e, aos 81 anos, conceda-se, Fidel está diante do tribunal da história. Visto o sofrimento que infligiu ao povo durante 49 anos como senhor absoluto de Cuba, a absolvição está fora de cogitação. Cabe recurso? Não dá mais tempo. Fidel está em fase terminal de uma grave doença e, na semana passada, anunciou que não mais concorreria à eleição indireta que escolhe o presidente e o comandante-em-chefe das Forças Armadas.

Seus apaniguados viram o gesto como prova de desprendimento do comandante e evidência de modéstia e renúncia pessoal em benefício da pátria. Tudo encenação. Nem que quisesse, a saúde debilitada e a velhice lhe permitiriam candidatar-se a algo mais do que uma vaga no jazigo dos heróis na Praça da Revolução. Diante de uma impossibilidade finge que está por cima. Vintage Fidel. Clássico Fidel. Vai anunciar o corte da cota de leite para a população adulta de Havana? Diga à multidão que não faltará leite para as crianças. Vai ter de recuar, desmontar os mísseis atômicos soviéticos e devolvê-los a Moscou? Diga que Cuba é soberana e pode ter as armas que quiser: “Os mísseis se vão. Mas ficam todas as demais armas” – como se isso fosse algum consolo. Mas as massas vão acreditar. Foi pego exportando terroristas para insuflar a subversão em outros países? Diga que, se quisesse mesmo fazer terrorismo, Cuba produziria “excelentes terroristas, e não esses incompetentes que foram presos”. Está difícil explicar a miséria franciscana da economia cubana? Diga que quem está mal são os Estados Unidos (“os ianques estão falidos”), o Japão (“tenho pena dos japoneses”) e a Europa (“o velho continente está esgotado”). Está prestes a morrer, não consegue caminhar nem discursar? Diga que vai apenas mudar de posto, mas que o combate continua.

Reuters
DAVI E GOLIAS
Enquanto Fidel reinou, os Estados Unidos tiveram dez presidentes. O clima de confronto com o vizinho poderoso fortaleceu o poder do ditador, que pode posar de Davi na luta contra Golias. Fidel em piscina em visita à Romênia, em 1972, e, abaixo, americanos assistem a discurso de Kennedy durante a crise dos mísseis, em 1962
Time & Life Pictures/Getty Images

Todo político tem de ser bom mentiroso. Para ser Fidel é preciso, no entanto, ser um grande farsante. Ele é um dos maiores que a história conheceu. É presidente de uma nação paupérrima, mas vive como um cônsul romano que come lagostas quase todos os dias? Negue: “Temos as lagostas mais doces do Caribe, mas não as comemos. Trocamos por leite para as crianças”. Vive cercado de um aparato de segurança que parece um bunker ambulante? Invente que é um homem simples que às vezes anda só pelas ruas, como um filósofo peripatético absorto em uma paisagem idílica: “Outro dia, no México, ia só pela rua, só como uma pomba…”.

Desde os primeiros momentos da revolução que o levou ao poder, em janeiro de 1959, Fidel mostrou a utilidade política de um grande fingidor. Quando começaram os julgamentos sumários com o objetivo de criar um clima de terror e matar os inimigos, e até alguns amigos políticos, Fidel não aparecia como carrasco (esse era o papel do argentino Che Guevara) nem como juiz. Fingia não se envolver. Em uma aparição famosa, ele vai ao tribunal do júri e faz um discurso mercurial: “Que esta revolução escape da maldição de Saturno. E que é a maldição de Saturno? É o dito clássico, o refrão clássico de que, como Saturno, as revoluções devoram seus próprios filhos. Senhoras e senhores deste tribunal, que esta revolução não devore seus próprios filhos”. Lindo? Sim, mas era uma farsa. Naquele mesmo dia, dois jovens combatentes comunistas urbanos que não lutaram na guerrilha rural de Castro foram condenados à morte. A revolução devorava alguns de seus próprios filhos. Mas o que ficou? O discurso inflamado com referências eruditas. Funciona sempre? Não. Funciona em Cuba, que tem Fidel e algumas outras características que ajudam esse tipo de farsa a passar por verdade. Ajuda muito banir a imprensa, dominar a televisão e o rádio, proibir a entrada de jornais estrangeiros no país e impedir os cidadãos de viajar para o estrangeiro. Ajuda enjaular por tempo indeterminado, e sem juízo formado, toda a oposição. Ajuda muito abolir as liberdades individuais e ser o ditador de uma ilha, um país-cárcere. Eis a grande obra de Fidel Castro em meio século de governo. A história o absolverá? Difícil.

Divulgação
A OPORTUNIDADE
Resort da rede Meliá na ilha de Cayo Guillermo, em Cuba, proibido para cubanos: o crescimento da indústria do turismo, que recebe 2 milhões de visitantes por ano, é mérito de Raúl, que colocou militares aposentados para administrar o setor

Cuba tem um presidente, mas não uma Presidência. Fidel Castro é a revolução. Lealdade ao estado cubano é a lealdade a Fidel. Naturalmente, à medida que se aproxima o dia de seu desaparecimento, a questão da sucessão provoca tremenda incerteza e instabilidade potencial. Sobretudo porque em ditaduras personalistas a sucessão para valer geralmente só pode ocorrer depois da morte do grande cacique, mesmo que ele tenha passado muito tempo incapacitado de governar. A lenta agonia de Mao Tsé-tung e de Leonid Brej-nev congelou a China e a União Soviética por anos. O mesmo ocorre com Fidel. Em julho de 2006, sabendo-se entre a vida e a morte, ele foi forçado a delegar ao irmão, Raúl, o título de presidente em caráter provisório. O anúncio de que não mais voltará ao cargo ocorreu seis dias antes de a Assembléia Nacional aprovar o novo Conselho de Estado e seu presidente (o mais graduado título de Fidel desde que o Conselho foi estabelecido, em 1976). É quase certo que Raúl será confirmado no cargo. Mas os camaradas podem optar por um homem mais jovem, o vice-presidente Carlos Lage, 56 anos, de forma a evitar a necessidade de nova sucessão em curto prazo, já que Raúl está com 76 anos. É bem possível que Lage se torne, por enquanto, o número 2 de Cuba, o lugar até agora ocupado pelo primeiro-irmão. Toda a movimentação, no final das contas, faz parte do jogo de paciência. Enquanto estiver neste mundo, Fidel continuará a ser a voz forte nas decisões estratégicas.

AFP
O DESESPERO
Cubanos fogem para os Estados Unidos em um caminhão da década de 50 transformado em balsa, em 2003: 78 000 pessoas morreram na tentativa da travessia

O que será de Cuba depois que Fidel for se encontrar com Marx no céu dos comunistas? O regime cubano, da forma como nós o conhecemos, não pode sobreviver a seu criador. No dia seguinte ao funeral do “comandante-en-jefe”, tudo parecerá no mesmo lugar – o Partido Comunista, a polícia política, os ministérios, a camarilha dirigente –, mas essa estrutura terá a consistência de um painel cenográfico. Fidel Castro liderou uma revolução cara à imaginação da esquerda latino-americana. Sobreviveu à inimizade dos Estados Unidos, lutou na linha de frente da Guerra Fria e, seu feito mais notável, sobreviveu ao colapso do patrono soviético. No curso dessa carreira, ele pegou uma ilha caribenha, cujo destino natural era a irrelevância, e a colocou no centro das preocupações internacionais. Não há ninguém com o currículo e o talento necessários para ocupar o posto de comandante-em-chefe e ser levado a sério pela população da ilha. Dois terços dos 11 milhões de cubanos nasceram depois de 1959 e não conheceram outro líder exceto Fidel. “Nos livros escolares, Fidel é enaltecido como o grande pai, aquele que trabalha dia e noite para proteger os cubanos”, disse a VEJA o historiador argentino Carlos Malamud, do Instituto Real Elcano, em Madri.

Raúl ganha o cargo, mas falta-lhe o carisma necessário para ocupar o papel de pai da pátria que seu irmão encarna. A ilha foi submetida a um processo traumático por meio século. Fidel derrubou um sargento ignorante e corrupto, detestado pelos cubanos e desprezado pelo mundo. Não fez isso apenas com seu grupo de guerrilheiros barbudos em Sierra Maestra. A revolução cubana foi produto da vontade de uma frente ampla de estudantes, partidos políticos, organizações profissionais e contou com o entusiasmo da população cubana. O objetivo capaz de aglutinar toda essa gente era a restauração da constituição democrática de 1940, rasgada pelo ditador Fulgencio Batista. Fidel traiu todos eles. No fim de 1959, já tinha iniciado a repressão política. Dois anos depois, aproveitou-se das rivalidades da Guerra Fria para instalar o comunismo e se tornar cliente da União Soviética. Fuzilou antigos aliados, destroçou famílias e arruinou as esperanças de duas gerações de cubanos.

Quem pôde fugiu. Há 2 milhões de exilados – um em cada seis cubanos vive no exterior, uma proporção de exilados maior que a existente no Afeganistão, país devastado por trinta anos de guerra civil. O governo de Fidel Castro é agente do maior fracasso material da história das ditaduras latino-americanas. O comunismo foi formalmente estabelecido em abril de 1961. A economia planificada foi um desastre imediato. O racionamento de alimentos, que ainda persiste, começou no ano seguinte. O salário médio de um trabalhador cubano equivale a 10 dólares. A produtividade dos canaviais de Cuba, que já foi o maior produtor mundial, hoje é de 27.800 quilos por hectare, um índice baixíssimo. No Brasil, é de 73 900 quilos.

Cuba não teria sido o que foi nos últimos 49 anos se não fosse Fidel e, pelo mesmo motivo, está fadada a mudar com ele fora do poder. Não é fácil, pois a receita do desastre econômico está no coração do sistema político. Fidel jamais pretendeu estabelecer uma economia socialista com padrão mínimo de racionalidade e produtividade, como tentaram os comunistas do Leste Europeu – ou como os chineses e os vietnamitas estão fazendo agora. Mercado e instituições são anátemas em sua ideologia. Em lugar disso, o comandante-em-chefe apostava na mobilização em massa a pretexto de defender a pátria e no esforço incondicional daqueles que lhe eram fiéis. O próprio Partido Comunista foi, durante bastante tempo, mero coadjuvante. Há mais de dez anos não realiza um congresso. Ele sempre se recusou totalmente a implantar as políticas macroeconômicas necessárias para aumentar o PIB e a produtividade, criar empregos, salários reais e, até mesmo, aumentar a arrecadação de imposto. Incapaz de produzir riqueza, Fidel só podia oferecer aos cubanos uma divisão mais ou menos equitativa da pobreza. Por muito tempo conseguiu convencê-los de que isso era uma virtude socialista.

AFP
NOVO PATROCÍNIO
O presidente Hugo Chávez, ao lado de Raúl Castro, entrega um quadro de presente a Fidel, em visita ao ditador doente em agosto de 2006: o venezuelano ajuda Cuba com petróleo subsidiado em troca de médicos e professores cubanos que trabalham na Venezuela. Raúl não vê com bons olhos a influência de Chávez sobre Cuba, mas não tem muita opção

Não é de surpreender que essa situação tenha dado origem a um mundo bipolar, o da dupla moralidade. Em público, os cubanos apóiam o comandante-em-chefe e o regime e defendem objetivos socialistas. Em particular, engajam-se em atividades ilegais, compram e vendem no mercado negro e planejam deixar o país. O fenômeno foi reconhecido pelo Partido Comunista na década de 90, mas este não conseguiu eliminá-lo ou não se esforçou para isso. Alegres apesar das agruras de um país aos pedaços, os cubanos são uma fonte inesgotável de piadas sobre as mazelas do regime. Um exemplo: na escola, perguntam ao menino quais são as três grandes conquistas da revolução. Ele responde prontamente que são a educação, a saúde e a seguridade social. Provocativa, a professora quer saber quais são os três defeitos. O aluno também os tem na ponta da língua: café-da-manhã, almoço e jantar. Visto de uma perspectiva egoística, o modo de governar adotado por Fidel foi um sucesso para ele próprio. Nenhum outro ditador de sua época permaneceu tanto tempo no poder. Ele sobreviveu à hostilidade de dez presidentes americanos. “Sem Fidel Castro, o regime cubano teria acabado junto com a União Soviética, quase vinte anos atrás”, disse a VEJA a socióloga cubana Marifeli Pérez-Stable, vice-presidente do Diálogo Interamericano, um centro de análises políticas em Washington. Por outro lado, o estilo castrista é um problema para seus sucessores. Ninguém pode governar como Fidel governou, e não há acordo entre os camaradas sobre o melhor caminho a adotar.

Ela não vê perspectiva de democracia em Cuba em futuro próximo e também não está certa de que condições favoráveis à transição possam emergir a curto prazo. Na sua opinião, há quatro cenários possíveis para o futuro de Cuba.

• O primeiro é o desejado por Raúl Castro e muitos camaradas do Partido Comunista. Sem a presença de Fidel, seus membros poderiam enfim colocar em prática as reformas econômicas, copiando algumas medidas favoráveis ao mercado adotadas na China ou no Vietnã e mantendo intacta a estrutura política. Apesar de o partido conservar o monopólio do poder, haveria bastante liberdade econômica. Se der tudo certo, café-da-manhã, almoço e jantar deixarão de ser um problema para os cubanos.

• O segundo cenário é o almejado pelos cubanos exilados nos Estados Unidos. Com a saída de Fidel e uma ligeira abertura econômica, seu sucessor daria início à transição democrática. Novos nomes de dentro do regime e da sociedade civil ganhariam projeção política e começariam a pressionar o governo e a população não se daria por satisfeita apenas com a melhoria da qualidade de vida. Os sucessores de Fidel decidem não recorrer à repressão em massa, o que abre caminho para o estabelecimento da democracia a médio prazo.

• Uma terceira possibilidade seria que as reformas econômicas levadas a cabo pelos sucessores de Fidel se revelem lentas em produzir resultados. A população perde a paciência e protestos explodem nas cidades. A linha-dura propõe usar a força, mas os reformistas preferem negociar. Convocam um diálogo nacional e a transição para a democracia ocorre em ritmo acelerado.

• O último cenário é o mais caótico. O sucessor de Fidel é cauteloso desde o início, com medo de perder o controle. Não há abertura política ou econômica. Protestos populares espalham-se pela ilha. O Exército é chamado, cubanos fogem em massa para a Flórida. Uma intervenção americana ou de forças de paz da ONU não estaria fora de cogitação.

Depois de perder a mesada soviética, a economia cubana encolheu 35% entre 1989 e 1993. Muita gente esperou que Fidel fosse engolido pela queda do Muro de Berlim. Ele respondeu declarando um “período especial”, com medidas austeras e reformas tímidas, mas pragmáticas. Sob o comando de Raúl e Lages, foram permitidas a abertura de restaurantes familiares, feiras livres para complementar a escassa ração oficial e a circulação de dólares. Também foram encorajados o turismo e os investimentos estrangeiros, principalmente em hotéis, minas de níquel e exploração de petróleo. O resultado foi que algumas pessoas melhoraram de vida. Fidel viu nisso uma afronta ao sacrossanto princípio da igualdade revolucionário. Em 1996, ele deu marcha a ré nas reformas. O investimento estrangeiro tornou-se mais seletivo. A repressão política intensificou-se e culminou com a prisão de 75 dissidentes em 2003, na maioria condenados a longas penas de prisão.

Hugo Chávez substituiu a União Soviética como provedor. Ele manda 92.000 barris diários a preços subsidiados para Cuba. Nos últimos dois anos, ajudou com 2,3 bilhões de dólares. Graças a Chávez, os cortes de energia elétrica tornaram-se raros. A China também ofereceu crédito farto. No momento, Cuba está trocando sua frota de ônibus e caminhões por veículos pesados. Para completar, o preço internacional do níquel subiu. Nada disso teve reflexo significativo no bolso dos cubanos. O salário médio é de 265 pesos, o equivalente a 10 dólares. Um médico pode ganhar 700 pesos. É o suficiente para comprar uma dúzia de frangos – se é que alguém viveria apenas de comer frangos. Raúl não é um reformista nem um democrata. É comunista desde a adolescência. Mas, ao contrário de Fidel, não tem uma visão ideológica dos problemas sociais. Pragmático, percebeu que o regime não sobrevive sem reformas econômicas e vê com admiração o sucesso da experiência chinesa. Desde 1959 ele dirige as Forças Armadas, instituição que, dentro do caos geral de que padece o país, funciona razoavelmente bem. O Exército transformou-se no pioneiro do capitalismo cubano, investindo na agricultura, no turismo e na indústria. Raúl cuida pessoalmente do turismo. Com 300 praias de areia branca e mar transparente, a ilha atrai 2 milhões de turistas por ano. Se o irmão morrer, ele estará livre para tentar um comunismo à chinesa no Caribe.

O desafio de suceder a Fidel é grande. O regime perdeu a lealdade dos jovens. Num encontro recente, transmitido pela televisão, dois jovens universitários colocaram Ricardo Alarcón, o presidente da Assembléia Nacional, numa saia-justíssima. Eles fizeram isso com umas poucas perguntas básicas:

• Por que os cubanos não podem viajar para fora do país?

• Por que os produtos de consumo são cobrados em pesos conversíveis, que têm seu valor atrelado ao dólar, se os trabalhadores cubanos recebem em pesos normais, que não valem quase nada?

• Por que os cubanos não podem freqüentar os hotéis e os restaurantes abertos só para turistas?

• Que sentido faz realizar eleições para a Assembléia Nacional se os eleitores desconhecem totalmente quem são os candidatos?

É compreensível que Alarcón não tenha conseguido articular respostas inteligíveis. A verdadeira resposta veio dias depois. Os jovens foram forçados a se retratar diante das câmeras da televisão oficial.

Nesse quadro tormentoso, surpreende como ainda se repete que “é preciso preservar as conquistas da revolução”. O mito propagandista sugere que Fidel tomou o poder em Uganda e agora o está devolvendo na Suíça. Na verdade, os indicadores sociais cubanos pré-Fidel eram excelentes nos quesitos educação e saúde. A contribuição castrista consiste sobretudo na destruição da infra-estrutura física e humana da ilha, que já foi rica em escritores, artistas e músicos e hoje é um deserto de idéias. O motivo da tolerância existente em relação a Cuba é de difícil explicação. O ensaísta argentino Mariano Grondona atribui esse fascínio pelo ditador caribenho ao realismo fantástico que domina não apenas na literatura, mas também no campo minado da política latino-americana. Esse pensamento se traduz basicamente pela crença de que nossos fracassos não são produto de nossos erros, mas uma conseqüência de algo maior, a opressão americana. Seria a utopia cubana como uma terra a salvo dos americanos que entusiasma políticos e intelectuais que, em sua própria terra, fazem questão de viver num regime democrático.

Gregorio Marrero/AP
Adalberto Roque/AFP
O NÚMERO 2
Entre os políticos cotados para assumir o poder, Carlos Lage é a segunda opção,depois de Raúl. À direita, o chanceler Felipe Perez Roque, um comunista ortodoxo

Os índices sociais de Cuba são razoáveis para uma ilha do Caribe. O país não reproduz os altos índices de criminalidade da vizinha Jamaica ou a pobreza abjeta do Haiti. Sem Fidel talvez o país fosse socialmente mais desigual. Mas implantar uma realidade de zoológico – ou seja, aquela em que todos têm comida, escola e saúde, mas vive enjaulado – não paga o preço do atraso, da falta de liberdade e da pequenez intelectual. Sobretudo por ser falsa a existência de uma dicotomia entre democracia e justiça social. A Costa Rica desfruta uma posição melhor que a de Cuba no IDH, sem ter para isso abolido as eleições livres, prendido opositores ou impedido seus cidadãos de viajar para o exterior. Entre os mitos mais divulgados por Havana está o de que a pobreza cubana é uma conseqüência direta do embargo comercial decretado pelos Estados Unidos nos anos 60. Trata-se de uma balela, visto que o restante do mundo está ávido por negociar com Cuba. O próprio embargo não é tão fechado quanto parece. Os cubanos compram 500 milhões de dólares em alimentos e remédios americanos. Outro 1 bilhão de dólares, uma das três maiores fontes de renda da ilha, é enviado pelos cubanos que vivem nos Estados Unidos a seus parentes em Cuba.

Muitos políticos americanos acreditam que o embargo é contraproducente e fornece uma desculpa para o fracasso econômico e social de Fidel Castro. Melhor seria revogá-lo e afogar o regime comunista num banho de dólares. Não é má idéia. Mas há razões para tanta hostilidade. O embargo foi uma resposta direta ao confisco de propriedades americanas no valor de 2 bilhões de dólares no início da revolução. Além do mais, é bom lembrar, num momento de absoluto fanatismo, Fidel tentou deflagrar a III Guerra Mundial. Em 1962, ele conseguiu que Nikita Kruchev instalasse mísseis nucleares em Cuba. Nos treze dias febris que se seguiram, a humanidade esteve perto da aniquilação. Por fim, Moscou aceitou retirar o armamento em troca da promessa de que a ilha não seria invadida. Sabe-se que Fidel tentou empurrar a União Soviética a levar o confronto até o limite do inimaginável. Assustados com a gravidade do que tinham vivido, John Kennedy e Kruchev deram início ao processo de coexistência pacífica entre as superpotências. Vamos ver a figura por este ângulo: Fidel Castro é um sobrevivente daqueles tempos tenebrosos. Já vai tarde.


“O castrismo acabou”

Enrique de La Osa/Reuters
Palacios em Havana, um mês antes de partir para Madri: tortura


O dissidente cubano Héctor Palacios Ruiz considera o afastamento de Fidel Castro um alívio para a população, mas duvida que seu substituto consiga manter-se no poder, exceto pela força. “De toda forma, qualquer um é melhor que Fidel”, diz o sociólogo de 64 anos. Preso em 2003 e condenado a 25 anos de cadeia por sua atividade oposicionista, ele foi solto no fim de 2006, em caráter condicional, para tratar da saúde. De Madri, onde está cuidando das doenças adquiridas na cadeia, Palacios concedeu ao repórter Thomaz Favaro a seguinte entrevista.

Raúl Castro pode ser melhor para Cuba que seu irmão, Fidel?
Qualquer um é melhor neste momento. Fidel Castro é um homem apegado ao poder, obstinado em evitar mudanças substanciais em Cuba. A falta de mudanças é o que de pior pode acontecer, pois os problemas econômicos e sociais do país são gravíssimos. Não creio, contudo, que Raúl consiga ser o dirigente de Cuba. Ele não tem força política suficiente nem o carisma necessário para isso. Raúl pode tentar governar pela força, apontando a pistola para a população cubana, mas por pouco tempo. O próprio Raúl já disse que Fidel é insubstituível.

Por que Fidel é insubstituível?
Fidel Castro é um político inteligente e muito hábil. Ele sempre teve todo o poder nas mãos e concentrou pessoalmente todos os cargos importantes: comandante-em-chefe, primeiro-secretário do Partido Comunista, chefe do Conselho de Ministros e presidente do Conselho de Estado. Fidel também conseguiu estabelecer uma aliança internacional com a esquerda e chegou a ser visto como o Homem do Século XX. Ele é um ícone da história. Não se pode esquecer que seu rosto e sua vontade foram onipotentes em Cuba durante as cinco décadas em que reinou. Acredito que tudo isso desaparecerá rapidamente. Note que ninguém chorou a saída de Fidel. Isso mostra como as pessoas estão cansadas do regime castrista. O castrismo desaparecerá da mesma forma que o stalinismo e o hitlerismo, movimentos que viraram fumaça depois da morte de seus criadores.

O que falta para que comecem as transformações políticas em Cuba?
As mudanças não começam nas estruturas políticas, e, sim, na população. Quando o povo está insatisfeito, pede mudanças. As transformações começam quando as pessoas percebem que o governo não tem como resolver os problemas. Isso já teve início em Cuba, mas se trata de um processo lento. Com a saída de Fidel da cena política, desaparecerão também muitos dos seus dogmas. O que temos em Cuba não é sequer socialismo ou comunismo. O regime cubano não encontra respaldo nem na teoria nem na prática comunistas. É um castrismo, terror semeado nas crianças desde que nascem para que não reajam. Fidel não deixa sucessor. Nem mesmo no Partido Comunista, que não passa de um grupo de políticos de carteirinha, mas sem ideologia. Imagine, em dez anos, como seria um Congresso cubano com essas pessoas. Não digo que será amanhã, mas falta pouco para a transição.

O sistema político atual pode sobreviver sem Fidel Castro?
A saída de Fidel nos traz um otimismo cauteloso, mas ainda restam muitas dúvidas sobre o futuro. Primeiro porque sabemos como ele atua. Enquanto tiver um sopro de vida, poucas decisões importantes poderão ser tomadas sem sua participação. Ele não renunciou ao cargo de primeiro-secretário do Partido Comunista, e na Constituição cubana está escrito que o partido é o reitor da sociedade. Portanto, Fidel continua no comando do país. Em segundo lugar, ele já demonstrou que não está disposto a tolerar mudanças no governo. E tem suficiente influência para isso.

O senhor acha que sua liberação foi um sinal de mudanças na ilha?
Eu não fui solto. Ainda sou um preso político. Estou na Espanha com licença médica para tratar das graves doenças que adquiri no cárcere. Devo 21 anos de prisão ao governo cubano. Na hora em que eles quiserem devo voltar ao cárcere, sem julgamento nem recursos. Há 250 presos políticos em Cuba, todos inocentes. Nenhuma lei diz que um homem deve ser preso pelo que pensa. A minha história é a de quase todos os opositores. Eu era um agricultor da Serra de Escambray, no centro de Cuba. Foi ali que ouvi falar de revolução pela primeira vez. Participei da guerrilha, pois estava interessado em tudo o que oferecia Fidel Castro. Depois fui me dando conta de que ele me enganava. Não tenho vergonha de ter combatido na revolução. Lutei para implantar a democracia, o que faço até hoje.

Quais são os problemas de saúde que o senhor enfrenta?
Tive um colapso do sistema circulatório da cintura para baixo, fruto de dois anos vivendo em celas “tapeadas”, como são chamadas. São cubículos muito baixos, fechados com placas de aço. Sem luz nem ventilação, o interior da cela atinge temperaturas entre 45 e 55 graus. As condições de higiene são terríveis. Isso afetou também meu sistema respiratório. Hoje tenho metade da capacidade respiratória normal. Devido a todos esses fatores, minha pressão arterial é altíssima. Recentemente sofri um ataque isquêmico transitório, por falta de oxigenação no cérebro, e caí. Dito isso, espero que você não me pergunte se há tortura em Cuba. Meu caso serve como resposta. Liberaram-me para morrer.

Por que os Estados Unidos insistem em manter o embargo a Cuba?
O governo americano cometeu efetivamente muitos erros. A invasão da Baía dos Porcos, em 1961, foi um dos piores. Outro engano incalculável foi ter cortado a cota açucareira de Cuba em 1960, pois isso permitiu a aproximação da União Soviética. Tudo isso ajudou Fidel Castro. O embargo econômico a Cuba não é significativo, pois os Estados Unidos são um dos maiores parceiros comerciais da ilha. Cuba importa dos americanos quase 500 milhões de dólares por ano. As compras incluem produtos agrícolas, subsidiados, que são revendidos por um preço muito mais alto no país. Os Estados Unidos são um grande negócio para Cuba, mas na cabeça das pessoas persiste a idéia de que há um boicote. Ou seja, o embargo americano só dá mais força a Fidel. O verdadeiro embargo é o do governo ao povo cubano. Quem pode imaginar que neste século, na América, onde todos já lutaram pela democracia, possa ainda existir um sistema de partido único?

Com reportagem de Alexandre Salvador,
Duda Teixeira, Thomaz Favaro e Vanessa Vieira

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